quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Memória Ilusionista [texto roubado]

A autora desse texto, que eu amo, é a Maíra, uma garota com um talento enorme para a escrita que conheci no Blog Nas Entrelinhas. Faz um tempão que ela não aparece por lá e quando decidiu deixar de escrever no blog deixou um post despedindo-se. Eu gostava muito de ler o que ela escrevia, e dos vários texto que ela postou com muitos me identifiquei, mas esse, sem dúvida alguma, eu queria ter escrito! É exatamente assim que me sinto...

Ma, saudades imensas de ti e de teus textos. Volta logo!

Memória ilusionista

Durante boa parte da minha infância havia, junto aos pratinhos prateados com desenhos estranhos de hipopótamos dançantes e outras nostalgias, uma felicidade ingênua sob a forma de um produto bobo: o iogurte que virava sorvete. Eu posso me lembrar dele com uma clareza quase intocável. Seu rosa claro e leitoso, o formato arredondado e o pequeno palito colorido que a gente usava para enfiar no iogurte e - depois de algumas horas no congelador - transformá-lo em sorvete. Aquilo me parecia tão mágico e inimaginável. Lembro de correr para o carrinho de compras sempre que minha mãe chegava do mercado para pegar todos, lembro de ajeitar o palito meticulosamente e lembro de ir verificar, basicamente de meia em meia hora, se a mágica já havia acontecido.

A lembrança de um iogurte que virava sorvete, durante anos, foi algo aconchegante dentro da minha cabeça. E sempre me perguntei o que teria acontecido a ele que não se via mais em mercado algum. Procurei por todos e, semana atrás de semana, vasculhei as prateleiras de iogurte em busca daquele que me soava quase inatingível. Tão mágico, singular, inimaginável. Meu iogurte onírico. E achei. Quando já tinha desistido, achei. O formato das minhas lembranças, a cor pálida, a textura. Feito criança, corri até a geladeira para encaixar os palitos coloridos em todos e deixar a mágica acontecer, após tantos anos, de novo. Mas - surpresa - quando pronto, o sorvete era só isso. Um sorvete de iogurte. Com aquele gosto de morango meio artificial, a consistência congelada que em nada lembrava a de um sorvete de verdade, o sabor esquálido. Um bom iogurte, não se pode negar. E uma idéia maravilhosa, eu devo admitir. Mas, afinal, aonde está aquele que ocupou meu pedestal durante tantos anos? Ele não existe.

Quase irônico isso, meu iogurte preferido nunca existiu. Quem existiu foi a lembrança idealizada dele. Então é assim? É assim na vida? A gente toma o iogurte - que não passa disso, por mais gostoso que seja - e ele se junta às lembranças da época; ao ambiente da casa, à rotina cheirosa, às memórias quentinhas. E nós sentimos saudade daquele sabor que era só mais um, mas que aumenta de tamanho e cor quando aliado à nostalgia? Eu admito que cheguei a questionar a qualidade dele. Passaram-se tantos anos, quem poderia me garantir que o fabricaram da mesma forma? Mas eu sei que sim. Pois sei que o melhor iogurte do mundo nunca poderia alcançar o que morava dentro da minha memória. Ele era meu. Inventado, modificado, colorido. Meu iogurte que não cheirava a iogurte normal, mas sim a casa de praia, verão, rede, varanda e infância. Que não tinha o cor de rosa normal, mas a cor leve da ingenuidade e da inocência, da felicidade pura vinda de um simples iogurte que vira sorvete. A mágica nunca funcionou dentro do congelador, aquele era só um eletrodoméstico funcionando com decência. A mágica era minha, era a mágica dos meus 6 anos de idade, da transformação iminente, da flor nascendo e da lagarta virando borboleta. E eu - agora já tão cética e um pouco amarga, já com algumas rugas de cansaço e com a ingenuidade pisoteada pelo asfalto - eu não poderia recriar isso. No máximo, imitar um truque de ilusionista, mas já estava cansada demais pra acreditar.

E talvez seja assim mesmo. Tomar o iogurte aos vinte anos de idade foi um erro; ele nunca poderia ser tão doce quanto foi antes. E como é que ele poderia ser? Se temos mentes tão traiçoeiras que acreditamos em passados mais acesos quando esses são passados. Se acreditamos que fomos mais felizes do que realmente fomos e condenamos o presente a uma penumbra que depois, quando ele deixa de ser presente, se acende. Meu iogurte irreal continua em mim. Lembrança aconchegante que me remete a uma magia há muito tempo já desvendada mas ainda assim intacta. Eu sei que ele nunca teve esse sabor, mas que sabor ele teve afinal? Eu também não saberia dizer. Talvez um gosto de nostalgia onírica e - como toda nostalgia - tendenciosa.

por mayf


10 comentários :

  1. que texto!!! E essa menina parou de postar por quê?


    Miriam, eu li livro só pra mandar a resenha pro LBG. Vou ver se escrevo hoje ainda. beijoooo

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  2. Oi, Ju, não sei por que ela parou... uma peninha, né? Gostava tanto de de ler os textos dela.

    Eba! vou adorar publicar a tua resenha!! Vou esperar...

    Um beijoooo

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  3. Desculpa estar meio sumida daqui, mas trabalhar e estudar cansa. Meu próximo pedido de niver é um dia de 36 horas, será que ganho?

    Beijos e ótimo final de semana,
    LAriane - Leituras & Devaneios – WWW.leiturasedevaneios.com.br

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  4. Oi, Lari,

    Te compreendo perfeitamente! E se vc ganhar esse presente me conta que vou querer também! rsrsr

    Um beijo

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  5. Eu nunca tinha lido nada dela e super goste... Entendo tudo.

    Aproveita tem post novo no blog, entrevista exclusiva + promoção. Não deixa essa passar!
    http://starbucksandbooks.blogspot.com
    Mil beijokas

    ResponderExcluir
  6. O texto é ótimo!
    Que pena q ela parou de postar...
    bj

    ResponderExcluir
  7. O texto é ótimo!
    Que pena q ela parou de postar...
    bj

    ResponderExcluir
  8. ei Miriam, ela escreve muito bem mesmo.
    Gostei bastante do texto, ela deve voltar a postar o mais rápido possível. ^^
    beijos

    ResponderExcluir
  9. Miriam, lindona, não sabia desse post super adorável por aqui, rs. Brigada mesmo pelos elogios! Eu tive que sumir por esse tempinho, mas agora voltei. Aliás, não tinha visto seu template novo, tá lindo! E só uma observaçãozinha: meu nome é com "í", rs. Se assim já erram, imagina se fosse com y, iam me chamar só de "máira", kkk. Enfim, brigada mesmo, querida! Você é um amor! Beijos!

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  10. Oi, Ma!

    Tão bom ter vocÊ por aqui! Já corrigi seu nome, tá!

    Um beijooo

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